Cachorro Grande em SP: como foi o show no Cine Joia
Não há dúvida: 2026 está se revelando um ano especial para os apaixonados pelo rock independente brasileiro da virada do milênio. Em março, o Street Bulldogs pisou novamente nos palcos depois de mais de uma década e meia de ausência, levando sua energia a várias capitais do país. Logo em seguida, no começo de abril, o Rodox — projeto encabeçado por Rodolfo Abrantes desde sua saída do Raimundos — confirmou uma turnê comemorativa reunindo a formação original. Nessa onda de reencontros, na última sexta-feira (17), foi a vez da Cachorro Grande agitar São Paulo com uma apresentação especial no Cine Joia. Depois do hiato aberto em 2019, a banda segue retomando o fio da meada e, menos de um ano após um show comemorativo, volta a ocupar o palco — renovando, nos fãs, a esperança por um retorno definitivo e por uma agenda mais recheada.
Mas, para entender o peso desse momento, vale lembrar o caminho percorrido. A banda Cachorro Grande construiu seu lugar entre os maiores do rock nacional nos anos 2000, nadando contra a corrente: enquanto as tendências apontavam para outros rumos, a banda abraçou influências do rock clássico de The Beatles, The Rolling Stones e The Who, vestiu a estética mod e entregou shows de uma intensidade difícil de ignorar. O resultado veio na forma de canções que ficaram na memória coletiva, como “Sinceramente” e “Lunático“, no prêmio do MTV Video Music Brasil 2007 e em turnês divididas com grandes nomes internacionais.
Matheus Torres foi o responsável por abrir os trabalhos
A noite teve abertura a cargo de Matheus Torres, nome que ganhou visibilidade ao passar pelo reality show “Estrela da Casa”. Em um set direto ao ponto, o cantor percorreu faixas do álbum Tanta Pressa, com uma sonoridade que remete ao pop rock nacional dos anos 1980 — Barão Vermelho, Djavan e Cazuza pairavam no ar. A apresentação cumpriu bem seu papel de aquecimento, tendendo pontes entre gerações por meio de referências que resistem ao tempo.

Cachorro Grande reafirma força do rock dos anos 2000 em noite intensa no Cine Joia
Por volta das 22h, com o Cine Joia lotado, Beto Bruno (vocal), Marcelo Gross (guitarra), Gabriel Azambuja (bateria), Eduardo Barreto (baixo) e Pedro Pelotas (teclados) tomaram o palco. A escolha da abertura com “Você Não Sabe o Que Perdeu” foi uma declaração de intenções: sem rodeios, sem aquecimento gradual — a banda entrou com tudo e manteve essa temperatura ao longo de toda a noite. O setlist transitou por diferentes momentos da carreira, revisitando álbuns como As Próximas Horas Serão Muito Boas, Pista Livre, Todos os Tempos e Baixo Augusta, enquanto o público cantava junto em clássicos como “Hey Amigo!“, “Bom Brasileiro“, “A Alegria Voltou” e “Lili“.
O que mais chamava atenção era a desenvoltura da banda no palco. Beto Bruno comandava o show com uma espontaneidade beirando o caos — numa corda bamba entre o carisma e o exagero que funciona perfeitamente para o contexto. Marcelo Gross deu um passo à frente em momentos-chave, como quando assumiu o protagonismo em “Dia Perfeito“.
No trecho final, o show alcançou seu ponto mais alto com “Sinceramente” — desta vez com Matheus Torres dividindo o vocal com Beto —, “Sexperienced” e “Lunático“. Foi o resumo perfeito do que a noite representou: para quem estava descobrindo a banda ao vivo pela primeira vez, um encontro com clássicos que deveriam ter sido ouvidos há mais tempo; para quem já os conhecia de cor, uma viagem de volta à época em que esses hits tomavam conta da grade dos programas de videoclipes.
No fim das contas, a Cachorro Grande deixa claro que não perdeu nem um milímetro de sua relevância. Mais do que revisitar o passado, o show serviu para mostrar que os gaúchos seguem tão poderosos quanto foram no auge da fama.

Setlist
Você não sabe o que perdeu
Hey amigo!
Desentoa
As próximas horas serão muito boas
Bom brasileiro
A alegria voltou
Velha amiga
Roda-gigante
Debaixo do chapéu
O que você tem?
Dia perfeito
Lili
Vai T. Q. dá
Sinceramente
Sexperienced
Você não sabe o que perdeu
Lunático
Texto: Cledir Oliveira
Revisão e edição: Guilherme Góes
