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Entrevista: Leon Michels fala sobre El Michels Affair e 24 Hr Sports. crédito da foto: Mike Lawrie

Entrevista: Leon Michels fala sobre El Michels Affair e 24 Hr Sports

Em entrevista ao Pop Core Lab, Leon Michels, líder do El Michels Affair, fala sobre o novo álbum 24 Hr Sports, o equilíbrio entre passado e presente e a importância da integridade criativa em um mercado guiado por tendências.

Entre o passado e o futuro

Produtor, multi-instrumentista e mente por trás do El Michels Affair, Leon Michels é hoje um dos nomes mais requisitados da música contemporânea, além de ser um dos mais discretos. Depois de colaborar com nomes como Norah Jones, Clairo, Black Thought e Kali Uchis, o músico nova-iorquino volta ao centro da própria obra com 24 Hr Sports, álbum que combina inspirações visuais, colaborações multiculturais e uma sonoridade que atravessa décadas.

Ao falar sobre o processo criativo, Michels compara seu trabalho a um ofício artesanal. “A maneira como eu faço discos hoje é parecida com o trabalho de alguém que fabrica móveis sob medida”, diz. “É um processo longo, que passa por diferentes etapas — às vezes uso fitas, depois adiciono elementos digitais e continuo refinando o som até chegar ao ponto certo. Acho que uma das minhas forças é saber quando parar. Eu sei quando está pronto, e isso é algo que muita gente não consegue.

Colaborações e versatilidade sonora

Para ele, cada projeto tem seu próprio caminho e depende da interação com os artistas envolvidos. “Quando você trabalha com outro artista, precisa se adaptar a ele, e ele precisa se adaptar a você. É um compromisso mútuo, e acho que essa é a beleza de fazer música em colaboração”, explica. “Meu som é meu som, mas cada vez que trabalho com alguém diferente, o processo muda completamente.

Esse dinamismo se reflete também na diversidade de colaborações presentes em 24 Hr Sports, que reúne artistas de diferentes países, como Rogê (Brasil), Florence Adooni (Gana), Shintaro Sakamoto (Japão) e Norah Jones (EUA). “Eu ouço música de várias partes do mundo, de muitos estilos diferentes. Isso inevitavelmente influencia o que eu crio. Gosto da ideia de pular de gênero em gênero, e acho que enquanto for feito pela mesma pessoa, tudo vai soar coerente dentro de um mesmo universo”, afirma.

A música como experiência visual

A identidade sonora de Michels, frequentemente descrita como uma fusão entre o passado e o presente, também passa por um forte componente visual. Desde o início da carreira, o produtor se apoia em referências estéticas para moldar o som. “Sou uma pessoa muito visual. Sempre preciso de uma referência desse tipo que sirva de base para o disco”, conta. “Com Adult Themes, por exemplo, eu assistia a filmes de terror e suspense belgas dos anos 70. Já Yeti Season começou com uma pintura específica. No caso de 24 Hr Sports, comprei revistas Sports Illustrated dos anos 80 — o design delas me fascinou. Era algo colorido, maximalista, mas também plano e bidimensional. Quis que o som tivesse essa mesma sensação: vibrante, mas com uma névoa suave, quase embaçada.

Essa ligação entre imagem e som cria a atmosfera particular do novo álbum, que marca também um ponto de virada no catálogo do El Michels Affair, historicamente mais instrumental.

O desafio de cantar e se reconhecer

Em 24 Hr Sports, Michels aparece cantando em “Shining”, faixa solar e pessoal. Ele revela que a decisão de manter a própria voz veio de forma natural: “A princípio, eu achei que seria só uma guia, e depois chamaria outras pessoas para gravar, como um coral no estilo Funkadelic. Mas ouvi tantas vezes a gravação original que acabei me acostumando com o som da minha voz — e comecei a gostar. Então decidi manter.

Integridade criativa acima do sucesso

Mesmo com o reconhecimento da crítica e o respeito conquistado entre músicos e produtores, Michels segue guiado por princípios que priorizam autenticidade em vez de fórmulas. “Houve um período, talvez uns 15 anos atrás, em que eu estava tentando buscar sucesso, trabalhando com artistas de quem eu nem gostava tanto, apenas pra tentar ganhar dinheiro com música”, lembra. “Mas percebi rapidamente que o retorno vinha sempre quando eu fazia algo por mim mesmo. As pessoas se interessavam pelo que era genuíno, não pelo que eu fazia tentando agradar o mercado.

Essa percepção moldou sua visão sobre o que chama de integridade criativa, valor que considera essencial na era dos algoritmos e da superexposição. “Hoje, mais do que nunca, isso é tudo”, diz. “A única forma de chamar atenção é fazer música que seja totalmente sua. Se você ama pop e faz isso com verdade, vai funcionar. Mas, no meu caso, eu nunca amei pop de verdade, então não sabia como fazer, e o resultado não era bom. Então entendi que o único caminho era seguir o instinto e criar o que realmente me move.

Entre fitas analógicas, baterias digitais e referências de revistas esportivas dos anos 80, Leon Michels constrói uma discografia que soa atemporal. Sua música é uma colagem de épocas e culturas, mas sempre com o mesmo traço de elegância artesanal — o tipo de som que só pode nascer de alguém que, como ele, “sabe exatamente quando está pronto”.

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